na antropologia

O INACABADO CAMINHO ATÉ A ANTROPOLOGIA DA PERFORMANCE EM PORTUGAL

por Ricardo Seiça Salgado

Em Portugal, até à segunda metade do século XX, a antropologia tem uma matriz rural, preocupando-se acima de tudo com a identidade nacional portuguesa, por via da sua cultura popular. Há uma ‘preocupação obsessiva’ com este tema, o que Eduardo Lourenço veio a chamar de ‘sentimento de fragilidade ôntica’ (Lourenço, 1978: 92; Leal, 2000: 28). Com a Revolução de 1974, a antropologia institucionaliza-se, torna-se solidamente científica, diversifica-se teórica, temática e metodologicamente. No início dos anos 90, a Antropologia da Performance começa timidamente a aparecer em alguns departamentos de antropologia. Ainda assim, parece difícil a legitimação dos estudos de performance, apesar dos eventos fragmentados, promovidos por Departamentos ou Centros de Investigação. É esta história que se passa a contar, para melhor se perceber o inacabado caminho que vai adiando a recepção dos estudos de performance em Portugal.

Até à segunda metade do século XX: Uma antropologia da Nação ou do Império?

João Leal (2000) diz-nos que, apesar de Portugal ter um império, a tradição antropológica que vingou foi a da construção da nação, a partir das décadas de 1870 e 1880[1]. Apesar de contribuições isoladas, sem grande impacte científico, de descrição das populações residentes nos territórios de administração colonial portuguesa, o interesse antropológico pelo terreno colonial, de uma forma mais sedimentada, virá só a existir no final da década de 1950, com o estudo dos Macondes (norte de Moçambique), de Jorge Dias.

Até à segunda metade do séc. XIX, as investigações nas colónias eram hegemonicamente orientadas pelo paradigma positivista, sob a égide da antropologia física ou, na vertente sociocultural, do evolucionismo. Assim, ligada ao Museu de História Natural, a primeira cátedra de antropologia foi criada em 1885 na Faculdade de Filosofia Natural da Universidade de Coimbra. Denominava-se ‘Antropologia, Paleontologia Hu­mana e Arqueologia Pré-histórica’ e a sua regência estava a cargo de Bernardino Machado. Em 1911, já com E. Tamagnini à frente, surge o Curso Livre de Etnografia Colonial que visa um conhecimento das populações das colónias.

Entretanto, em 1878, em Lisboa, na recém-criada Sociedade de Geografia de Lisboa, foi aprovado um Projecto de uma Escola de Disciplinas relativas à Terra e à Gente e às Línguas do Ultramar Português – Curso Colonial Português. Pretendia-se responder à ameaça do avanço das potências europeias em África, materializada na Conferência de Berlim de 1884-85, pretendendo criar um corpo especializado de administração pública de nível superior que ocupasse os territórios colonizados por Portugal. Em 1906, sedimentando o mesmo intuito do Projecto, é então criada a Escola Colonial[2] onde se formam funcionários na lógica da ideologia do regime colonialista (Santos, 1997). Ao longo destes tempos (incluindo o Estado Novo), a produção de conhecimento é, portanto, fortemente condicionada pelo poder político vigente, numa lógica de perpetuação dos interesses ideológicos (Falcão, 2006).

João Leal (2000), numa obra fundamental para se compreender a antropologia portuguesa (e que a primeira parte deste artigo se baseia), analisa os quatro períodos na antropologia portuguesa entre 1870 e 1970. Trata-se de um século em que se elaboram concepções distintas acerca da cultura popular, do seu objecto e dos modos teóricos e metodológicos que encerram o seu estudo. Cada um destes períodos corresponde uma linha de força.

1870-1880 – O Romantismo da Cultura Popular

No primeiro período, Portugal é visto como produto de originalidades étnicas presentes nas tradições populares e na literatura (o cancioneiro, o romanceiro e os contos), de um mundo rural que está no passado e que urge reconstituir ou inventar, uma herança étnica que os povos haviam de preservar. O ‘povo é, pois, visto como um guardador de textos anonimamente criados em remotos tempos étnicos’ (ibidem, p. 43).

Procura-se seguir a tendência europeia de resgatar o interesse romântico pela cultural popular, enquadrado grandemente pelas matérias trabalhadas nas conferências do Casino, em 1871. De certa forma, as tradições populares equivaliam-se ao folclore, à etnologia, à mitologia comparada. Havia, contudo, pouco trabalho de terreno, as culturas não passavam de textos, num enquadramento teórico entre o difusionismo e o evolucionismo.

Etnógrafos como Consigleri Pedroso, Adolfo Coelho, Teófilo Braga e Leite de Vasconcelos são os grandes embaixadores, cruzando estes estudos nas fronteiras ambíguas entre a filologia, a linguística, a história literária, a arqueologia ou a antropologia física.

1890-1900 – A identidade e a decadência nacional

No segundo período, descobre-se a diversidade interna do país. O gatilho deste período (continuando com Leal (2000)) é o Ultimatum e, na sua sequência, a abertura da fase final da crise da monarquia. Há uma abertura ao estudo no terreno nacional, para a literatura e mitologias populares, acrescentando à antropologia portuguesa as preocupações com a identidade e decadência nacional (tem como protagonistas Adolfo Coelho e Rocha Peixoto). As deslocações ao terreno tornam-se mais frequentes, fazem-se recolhas. O evolucionismo como paradigma teórico faz do passado étnico uma sucessão de estágios que justificam a evolução que caracteriza os povos. O camponês é uma espécie de ‘primitivo moderno’ (ibidem: 44). Como tal, há uma certa negativização das propriedades do povo e da sua cultura popular. Surgem as primeiras revistas da especialidade, com maior relevância para Portugália e Revista Lusitana. Mantém-se, contudo, um alheamento universitário em relação à antropologia (ibidem:  33).

1910-1920 – A invenção da nação

No terceiro período, a implantação da República e o optimismo sobre o destino nacional moldam uma etnografia nacionalista de carácter folclorizante estruturada em torno da arte popular, uma invenção da nacionalidade a partir das suas tradições.

Leite de Vasconcelos, depois de se ter dedicado à arqueologia regressa à investigação etnográfica publicando frequentemente ensaios, figura central em que outros etnógrafos se organizam (Vergílio Correia, D. Sebastião Pessanha, Luís Chaves, Augusto César Pires de Lima). A cultura material dos camponeses assume especial relevância, assim como a arte popular, impulsionando uma espécie de ‘etnografia artística’. De texto, as tradições populares tornam-se mais plásticas, em algo que deve ser visto porque esteticizado (Leal, 2000, p. 45). Ainda assim, as idas ao terreno na procura de novos objectos são rápidas e fugazes e raramente contextualizadas as experiências em redor do sentido desses objectos. Sobre o intuito explicativo, celebra-se a cultura popular. Os etnógrafos integram-se activamente no clima de nacionalismo cultural que caracteriza os anos da I República (Ramos, 1994).

1930-1970 – Política do Espírito, etnografia de urgência e crítica ao Estado Novo

No quarto período, Leal (2000) mostra como se destacam três grupos distintos:

a)   Etnografia ao serviço da Política de Espírito

A etnografia e folclore do Estado Novo, ligada à ‘política do espírito’ e centralizado na acção do SPN[3], retoma esse caminho da invenção da nacionalidade a partir das suas tradições, em sintonia com a concepção de cultura popular da I República (pensada como arte popular)[4].

Aqui se desenvolvem acções de divulgação cultural no seio da nação (que produzem, igualmente, a imagem externa do país), com “procedimentos de estilização da cultura popular [concebida enquanto arte popular] em exposições, espectáculos, edições e outras iniciativas” (ibidem, p. 36, parêntesis meus), como o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal (1938), o Centro Regional da Exposição do Mundo Português (1940), o Museu de Arte Popular (1948), ou a Junta Central das Casas do Povo (1945) que coordenava as Casas do Povo, enquadrando a sua acção política-ideológica do regime, quer através da criação e disciplinamento de ranchos folclóricos quer da obcessão em promover variados museus etnográficos de cariz rural (da qual a FNAT – Fundação Nacional para Alegria no Trabalho[5] – criada em 1935 – também desempenhava um papel coordenador). De salientar ainda a formação do grupo Verde Gaio que usava a dança como expressão dessa arte popular do povo, essencializando-o em imagens coreográficas e figurinos específicos, dando vida à cultura popular que haveria de representar o povo. Como disse António Ferro, ‘o verdadeiramente belo seria transformar Portugal rústico numa constante exposição viva de arte popular’ (ibidem: 49). A versão da nacionalidade encontrava o seu substracto.

De notar que a partir do final dos anos 1950, há uma preocupação de dotar este investimento ideológico de um rosto mais académico, organizando-se congressos, colóquios, editando revistas (Revista de Etnografia), embora mantendo-se sempre relativamente marginal ao meio universitário, científico e apesar da promoção de idas ao terreno por via de etnógrafos locais que alimentavam essa celebração.

b) Jorge Dias e a etnografia de urgência

A figura de Jorge Dias[6] e da sua equipa − Margot Dias, Fernando Galhano, Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira – impôs-se no panorama da antropologia portuguesa, actualizando-a teoricamente, colocando-a num plano internacional. Foi igualmente com Jorge Dias que se inaugura o estudo de comunidades das colónias (os Macondes, de Moçambique) de uma forma mais científica e menos ideologizante, dada a sua posição de indiferença para com os etnólogos do regime que, apesar da desconfiança, acabariam por reconhecer a importância do seu trabalho. Merece igualmente destaque a sua relação com a geografia humana de Orlando de Carvalho, ou a linguística de Paiva Boléo e Lindley Cintra.

Com esta equipa de antropólogos a institucionalização da disciplina de antropologia (preparação académica e investigação com trabalho de campo extensivo) atinge um nível de sucesso nunca antes tido na antropologia portuguesa. A cultura popular é metodologicamente trabalhada a partir das tecnologias tradicionais, trabalhando a cultura material agora mais pela sua funcionalidade e saber-fazer. A arquitectura popular e as festividades cíclicas são outros tópicos de interesse. Assim, fazem-se monografias sobre comunidades do Norte, ensaios que assumem a atitude de uma ‘etnografia de urgência’, com a preocupação em traçar um retrato da diversidade e riqueza cultural do país, nos seus variados aspectos. Em termos museológicos está ligado à criação do Museu de Etnologia de Ultramar (1965).

c) Etnografia crítica ao Estado Novo

A etnografia construída em torno da crítica ao Estado Novo é feita por um grupo de intelectuais (oriundos dos meios culturais de esquerda) que vêm das mais diversas áreas – música, arquitectura, artes plásticas, cinema – desde militantes do PCP (Partido Comunista Português) até católicos progressistas, que se ligam à antropologia com o intuito de criar um contra-discurso ao discurso etnográfico do Estado Novo, por via do seu trabalho artístico.

Procuram a construção de uma visão alternativa do mundo rural português. A sua concepção de cultura popular ‘tende simultaneamente a projectá-la para o futuro, na medida em que a cultura popular passa a ser implicitamente vista como parte de um programa de transformação democrática de Portugal ou, mais modestamente, de um programa vanguardista de renovação das artes’ (Leal, 2000: 54).

Beneficiam do trabalho cultural promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, instituição onde podemos encontrar Michel Giacometti, Fernando Lopes Graça, Ernesto de Sousa, Manuel de Oliveira, António Campos, ou ainda os arquitectos do Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal (realizada durante os anos 1950 e vindo a ser publicada em 1961)[7].

Pós-1974: Duas gerações de docentes e a disseminação dos cursos de antropologia

a)   Anos 1979-1980: A geração sénior de antropólogos docentes

Só depois da revolução de Abril de 1974 surgem as primeiras licenciaturas em antropologia social e cultural: na UNL – Universidade Nova de Lisboa (curso criado em 1978); no ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Lisboa (criada em 1980)[8]; no ISCTE – Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Lisboa (criada em 1982)[9]; na Universidade Fernando Pessoa, Porto (criado em 1990); e na Universidade de Coimbra (criado em 1992)[10]. Formam-se gradualmente pós-graduações e mestrados (ISCSP, ISCTE, UNL).

Esta geração faz aquilo que Robert Rowland chamou de uma ‘refundação da antropologia em Portugal segundo o modelo que se praticava na comunidade científica internacional’ (Frois, 2011, p. 595). A formação teórica era sobretudo clássica (seja de predominância estruturalista – francesa –, seja funcionalista – britânica; seja, ainda, mais tarde, do culturalismo – americano). Privilegiava-se igualmente o contexto português, uma vez que à altura era difícil investigar nas ex-colónias (assoladas por guerras; ou por falta de financiamento). Centrando-se na pesquisa em terreno português, uma vez que estava tudo por descobrir, os modelos teóricos enquadravam-se no que se fazia na Europa pois, à altura, a comparação na antropologia era feita por via das topografias concretas (o mediterrâneo, a Europa do Sul).

De destacar ainda o GIS – Gabinete de Investigações Sociais, fundado pelo pioneirismo de Adérito Sedas Nunes, que passa a ser chamado ICS – Instituto de Ciências Sociais (autónomo da Universidade de Lisboa) em 1982, adquirindo o estatuto de Laboratório Associado em 2002. É daqui que sai a mais antiga e prestigiada revista de ciências sociais, a Análise Social, bem como a editora Imprensa de Ciências Sociais. É igualmente aqui que se desenvolvem as mais variadas investigações antropológicas.

Por fim, notar que desde 1975 até 1992 a disciplina de ‘Estudos Sociais’ (inserida no 1.º grupo disciplinar do ensino preparatório), bem como a partir de 1979 (com a criação da disciplina de Antropologia Cultural no 10.º ano de escolaridade), ambas podiam ser leccionadas por licenciados em antropologia. Ainda assim, na maioria dos casos, dada a sua pequena carga horária, estas disciplinas acabavam por ser leccionadas por professores de outras formações, sobretudo de Geografia (Santos, 1997). Em 1993 desaparece a disciplina de antropologia do ensino secundário.

b)   Finais dos anos Oitenta: A nova geração de antropólogos docentes

É no seio das licenciaturas existentes que nasce a segunda geração de antropólogos. Licenciados nos departamentos portugueses, alguns deles tiram mestrados e doutoramentos em universidades estrangeiras. Outros acabam também eles a formar novos departamentos, fruto de investigações no terreno que começaram a proliferar, ou a ocupar lugares nos antigos que, entretanto, começam a abrir mestrados e depois doutoramentos.

É o tempo da antropologia interpretativa, do pós-estruturalismo, dos estudos culturais e pós-coloniais, e da emergência da pós-modernidade que começa a ser tratada em cadeiras dos mesmo cursos. Influenciados pelos trabalhos sobre o ritual e do regresso do corpo às ciências sociais, sobretudo a partir da linha do Erving Goffman, de Victor Turner – e da sua colaboração com Richard Schechner, alguns professores começam a explorar a análise a partir do paradigma da performance no seio dos conteúdos programáticos das disciplinas que leccionam. Uns, trabalhando conceitos teóricos em secções programáticas da disciplina leccionada (como ritual, liminaridade, drama social, etc.), outros, enviesando, progressivamente, do ritual para a performance, importando lentamente as ideias que fervilhavam há uma década, sobretudo dos EUA[11]. Contudo, o paradigma dos estudos de performance é ainda completamente residual, tendo muito poucas consequências em termos de formação ou propensão de alunos para enveredarem por essa trajectória.

Séc. XXI: O (im)possível espaço para os estudos de performance em Portugal?

Só no início do século XXI, aparecem pela primeira vez no currículo das licenciaturas disciplinas cujo conteúdo é marcadamente referenciado pelo paradigma da performance. A pioneira é, talvez, a cadeira de ‘Ritual e Performance’, leccionada por Paulo Raposo no ISCTE, que cruza o estudo do ritual com as manifestações expressivas, política e a arte da performance. Mais tarde, em Coimbra, pelas mãos de Jacques Houart, uma proposta similar surge numa disciplina da licenciatura em antropologia, ‘Antropologia da Performance’. Gradualmente, a antropologia da performance torna-se sinónima de estudos de performance.

Começa, igualmente, embora muito fragmentariamente, a surgir em outras disciplinas, o parcial interesse nos estudos de performance. Na Escola Superior de Teatro e Cinema, no mestrado ‘Teatro e Comunidade’ aparece novamente a inclusão de uma cadeira de ‘Ritual e Performance’, leccionada por Paulo Raposo. Também na ESAD – Escola Superior de Artes e Design (Caldas da Rainha) abre-se ‘Antropologia Teatral’, leccionada por Teresa Fradique. Também a ESTAL – Escola Superior de Tecnologias e Arte de Lisboa possuía uma cadeira marginal de ‘Antropologia da Cultura Popular’ que tinha na sua base uma introdução aos estudos de performance (por Ricardo Seiça Salgado), embora se extinguisse com a reformulação do curso de Artes Performativas. Em Coimbra, nos Estudos Artísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, ‘A Arte da Performance’ é leccionada por Fernando Matos de Oliveira, e permite-se a especialização em Estudos Teatrais e Performativos. No mestrado em ‘Artes Cénicas’ da Universidade Nova de Lisboa, se bem que no Departamento de Ciências da Comunicação, coordenado por Paulo Filipe Monteiro, explora-se, sobretudo na disciplina ‘Espaços Performativos’ a relação entre performance e a arquitectura teatral. Já em 2012, abre o primeiro doutoramento em ‘Artes Performativas e Imagem em Movimento’, numa parceria entre a Universidade de Lisboa e o Instituto Politécnico de Lisboa, embora até hoje ainda não tivesse arrancado. Também não arrancou uma pós-graduação em ‘Estudos da Performance’, no ISCTE, por falta de alunos.

Na verdade, não se pode dizer que haja ainda em Portugal um curso sustentado pelo paradigma dos estudos de performance, entendidos no seu amplo espectro. Por tudo isto, a recepção do campo nunca foi feita em Portugal, as suas lentes do saber tardam a vingar no meio académico português. O que existe são iniciativas pontuais (ver o texto ‘Iniciativas Recentes’ neste blog) promovidas pela mais variadas instituições, como por exemplo pelo CRIA – Centro em Rede de Investigação em Antropologia[12] que tem organizado eventos que divulgam esta área do saber. Por outro lado, na Antropologia ainda são residuais os frutos da formação em estudos da performance. Normalmente, os alunos vêem-se obrigados a sair do país para desenvolverem os seus projectos académicos da especialidade. Por outro lado ainda, a fricção entre os estudos de performance e os estudos teatrais barra o seu desenvolvimento em escolas artísticas.

Referências:

FALCÃO, Ana Mafalda, 2006, “Antropologia Colonial e a Produção de Conhecimento sobre Grupos Étnicos da Guiné Portuguesa: Reflexão em torno da Tese de Mário Humberto Ferreira Marques ‘Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte’”. Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia, 3, (6,7 e 8 de Abril 2006), Lisboa. In Actas do Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia, Lisboa: APA. Disponível em: http://www.apantropologia.net/publicacoes/actascongresso2006/index.asp. [Acesso em: 10 Out. 2012].

FROIS, Catarina, 2011, “Entrevista a Robert Rowland: por Catarina Frois”. Análise Social, vol. XLVI (200), 2011, pp. 588-603.

ISCSP, s. d., “Quem somos – História (1906-2010)”. In http://www.iscsp.utl.pt.

LEALJoão2000Etnografias Portuguesas (1870-1970): Cultura Popular e Identidade Nacional. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

LOURENÇO, Eduardo, 1978, O Labirinto da Saudade. Psicanálise Mítica do Destino Português. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

RAMOS, Rui, 1994, “A Segunda Fundação (1890-1926)”, Mattoso, J. (ed.), História de Portugal, Vol. VI, Lisboa, Círculo de Leitores.

RAPOSO, Paulo, 1998, “O Auto das Floripes: ‘Cultura Popular’, Etnógrafos, Intelectuais e Artistas”, Etnográfica II (2), 189-219.

SANTOS, Paula M. & Seixas, Paulo Castro, 1997, “A Antropologia na Educação: Abertura Antropológica sem Antropólogos”, ANTHROPOlógicas. Universidade Fernando Pessoa, CEAA – Centro de Estudos de Antropologia Aplicada. In http://ceaa.ufp.pt/educ2.htm [acesso a 15 Outubro 2012].

SARAIVA, Clara , “João Leal, Antropologia em Portugal: Mestres, Percursos, Tradições”, Etnográfica, vol. 12 (1) 2008, 265-268.


[1] Parece realmente uma contradição uma vez que contraria a tradição antropológica que se desenvolvia nos EUA e nos países europeus que então tinham colónias (a Grã-Bretanha, a França). Estes orientavam a disciplina para a ‘construção do império’, debruçando-se sobre as sociedades e culturas não-ocidentais, discutindo a alteridade cultural e o primitivismo (Leal, 2000).

[2] A Escola Colonial, desde então, teve vários nomes. Em 1927, passou a designar-se ESC – Escola Superior Colonial (sob a tutela do Ministério da Marinha e Ultramar). O Curso Colonial foi substituído, em 1946, pelos cursos de Administração Colonial e de Altos Estudos Coloniais. Em 1954, a ESC recebe o novo nome de Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (ISEU). Em 1961, o ISEU passa a integrar a Universidade Técnica de Lisboa. O elenco de disciplinas foi revisto e os cursos passaram a designar-se “Curso de Administração Ultramarina” e “Curso Complementar de Estudos Ultramarinos”. O seu objectivo permaneceu o mesmo: ministrar o ensino superior das Ciências Ultramarinas, preparando quadros para a administração ultramarina, cultivando a investigação ao nível do estudo das populações ultramarinas, leccionando História, Direito, Geografia, as línguas faladas nas colónias, topografia, construção civil, etc. Em 1962, o ISEU passou a designar-se ISCSPU – Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina e, ao longo dos anos de 1960, foi incluindo nos seus curricula, progressivamente ampliados, novos cursos. Em 1969 é criado o primeiro curso de antropologia em Portugal, assim como o de sociologia (ISCSP, s. d.).

[3] SPN – Secretariado de Propaganda Nacional, criado em 1933 – sob a direcção de António Ferro. Em 1945 toma o nome de SNI – Secretariado Nacional de Informação.

[4] Nesta linha orientadora encontramos etnógrafos como Luís Chaves, Augusto César Pires de Lima, D. Sebastião Pessanha e Vergílio Correia, Abel Viana, Guilherme Felgueiras, Armando Leça, Armando de Matos, Joaquim Alberto Pires de Lima e ainda Fernando de Castro Pires de Lima que, em 1960, será o organizador dos três volumes de A Arte Popular em Portugal (entre 1960 e 1963); ou ainda expresso na edição de Vida e Arte do Povo Português (1940).

[5] A FNAT é fundada por António de Oliveira Salazar com o objectivo de promover o turismo nacional, para os tempos livres dos trabalhadores. Só em 2008 se viria a designar por INATEL, uma fundação de carácter social que ainda promove o turismo, o termalismo e a promoção do desporto e de actividades culturais diversas.

[6] Tirando um Doutoramento de Etnologia em Munique, vem para Portugal em 1947, formando uma extensa equipa de antropólogos e preparando-os para o trabalho de campo, na direcção da Secção Etnográfica do Centro de Estudos de Etnologia Peninsular. Jorge Dias participa na Comissão Internacional de Artes e Tradições Populares onde se coordena a pesquisa etnológica da Europa; é membro da revista Ethnologia Europaea; faz várias incursões a congressos no Brasil e nos EUA, onde chegou a ser professor convidado da Stanford University.

Jorge Dias lecciona pela primeira vez cadeiras de teor estritamente antropológico na Faculdades de Letras da Universidade de Coimbra e, depois, no Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, em Lisboa. De notar que teoricamente é amplamente influenciado pelo ‘culturalismo alemão’ de Franz Boas, e pelo difusionismo pós-evolucionista.

[7] Partindo de uma ideia dos arquitectos José Huertas Lobo e Francisco Keil do Amaral (em 1947), ideia que é agarrada pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos, dividiram-se seis zonas de acção no território nacional: Minho (Fernando Távora, Rui Pimentel, António Menéres); Trás-os-Montes (Octávio Lixa Filgueiras, Arnaldo Araújo, Carlos Carvalho Dias); Beiras (Francisco Keil do Amaral, José Huertas Lobo, João José Malato); Estremadura (Nuno Teotónio Pereira, António Pinto Freitas, Francisco Silva Dias); Alentejo (Frederico George, António Azevedo Gomes, Alfredo da Mata Nunes); Algarve (Artur Pires Martins, Celestino de Castro, Fernando Ferreira Torres).

Percorrem o país de lés-a-lés, recorrendo a vários meios de transporte, das estradas sinuosas às rectas do sul, fotografando, desenhando, tomando as suas notas.

[8] Vindo de uma longa história (ver nota 2), após o 25 de Abril de 1974, o ISCSP (antigo ISCSPU) tem uma história bastante conturbada pelo saneamento de professores ligados ao antigo regime. O Ministério da Educação intervém e acaba por encerrar a escola (1976/1977), invocando-se ‘degradação pedagógica e científica’. Alguns professores passaram a leccionar no curso dos dois outros departamentos de antropologia existentes. Mais tarde (1980), o regresso dos professores saneados promove a reabertura do curso (Frois, 2011; ISCSP, s.d.).

[9] Este curso arranca com uma perspectiva interdisciplinar no contexto das ciências sociais, centrando-se teoricamente na antropologia clássica (do estruturalismo ao estrutural-funcionalismo) à etnografia em contexto português (aliando-se, de certa forma, à sociologia e à História que já existiam no Instituto). Começou com pessoas que acabavam o seu mestrado ou doutoramento fora de Portugal, a partir da mão de Robert Rowland, convidado para o fazer por Seda Nunes. Formavam estudantes que foram progressivamente colmatar a necessidade de mais docentes. (Frois, 2011). Entre eles: João de Pina Cabral, Brian O’Neill, Raúl Iturra (em Inglaterra), José Carlos Gomes da Silva (Bélgica), Joaquim Pais de Brito, José Fialho e Nélia Dias (França), Jorge Freitas Branco (Alemanha).

[10] O departamento de antropologia da Universidade de Coimbra herdou uma longa tradição no seio da antropologia física, como vimos em cima. Por isso mesmo, a licenciatura surge no seio da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (completamente afastada da história, da sociologia, da filosofia, da economia, no fundo, das ciências sociais). O curso é montado em duas especialidades com um tronco comum, a antropologia física e a antropologia social e cultural. Esta última será formada pela segunda geração de antropólogos que trataremos de seguida. Hoje, está absorvida no Departamento de Ciências da Vida.

[11] Na pioneira escola da Tisch School of Arts – Department of Performance Studies, NYU, formada justamente por Richard Schechner, Victor Turner, Brooks McNamara, Michael Kirby, Barbara Kirshenblatt-Gimblett.

[12] É o CRIA que edita uma das mais respeitadas revistas de antropologia em Portugal. Contudo, também aqui, o paradigma dos estudos de performance é residual.

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