em iniciativas recentes

por Ana Bigotte Vieira e Ricardo Seiça Salgado

Não havendo nenhum departamento, curso de graduação ou pós-graduação em Estudos de Performance* no país, pode falar-se com relativa segurança de uma ausência institucional deste paradigma em Portugal. Há, porém, ocasionalmente – espalhadas por várias instituições, muitas vezes fora da academia – iniciativas que de um modo ou de outro se cruzam com temáticas afins ao campo. Com excepções, são projetos pontuais, muitas vezes com particular enfoque numa componente apenas  dos Estudos de Performance (em geral a Arte da Performance ou as Artes Performativas, menos frequentemente a Antropologia), negligenciando o campo alargado dos Estudos de Performance na sua atenção ao social.

Não querendo, absolutamente, fazer uma lista exaustiva (nem tendo pretensões a tal), não podemos, no entanto, deixar de referir uma série de iniciativas que, entre meados de 2000 e 2013, se constituíram como essenciais no âmbito se não da recepção dos Estudos de Performance em Portugal, pelo menos na discussão das implicações do termo ou da explicação das suas práticas.

Conferências e ciclos de debates

Em Fevereiro de 2013 teve lugar no Teatro S. João, no Porto, o ciclo de conferências Artes Performativas e Tecnologia organizado pela Universidade Lusófona do Porto (ULP) – CICANT (Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias) e a partcpação de José Bragança de Miranda, Paulo Cunha e Silva, Luís Cláudio Ribeiro, Francisco Luís Parreira, Carlos Pimenta, Jorge Leandro Rosa, entre outros. Neste ciclo “com especial incidência nas artes cénicas e performativas, (…) respondeu[-se] à exigência de identificar e compreender os novos dispositivos simbólicos atuantes na arte contemporânea, projetar os seus futuros possíveis (possivelmente desejáveis) e recuperar uma noção de cena como lugar dialogante e aberto a todo o tipo de mediações.”

Em Janeiro de 2013, ocorreu o colóquio Drama e Filosofia: um encontro recorrente e necessário no Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, organizado por Paulo Filipe Monteiro, colóquio este que, nas suas palavras, pretendeu “demarcar-se das antigas discussões sobre ‘Filosofia e literatura’ porque não entende o drama enquanto (apenas) literatura, mas sim na sua dimensão performativa”. Neste sentido, como assinalou Laura Cull, participante do evento e dinamizadora do projecto performance philosophy, enquadrar-se-ia num novo campo emergente, o da performance philosophy. Os oradores convidados do evento foram Paulo Filipe Monteiro, José Gil, Freddie Roken, Herbert Blau, Maria Filomena Molder  e Martin Puchner.

Entre Outubro e Novembro de 2012, decorreu no Teatro Maria Matos em Lisboa o ciclo Fazendo mundo(s) – políticas da performance na multipolaridade planetária com curadoria de André Lepecki onde o carácter transversal dos Estudos de Performance se encontra bem explícito. Como se pode ler no seu programa: “vivemos num momento em que a economia global, a diversidade cultural multipolar e a ideologia neoliberal se agenciam na produção de um novo paradigma ‘paracolonial’ (utilizando uma expressão de Aimé Césaire) onde se prenuncia o muito falado ‘fim da política’. Este entrelaçamento singular de forças obriga a pensar como o mundo produzido pela lógica implacável dos mercados e suas derivas erráticas, derivativos virtuais e performances de poder requer a formação de alternativas.” Este ciclo incluiu workshops, seminários e conversas com a presença de criadores/investigadores como Randy Martin, Florian Malzacher, José Fernando Azevedo e o próprio André Lepecki – “académicos, curadores e artistas cujo trabalho deriva do forjar de novas alianças entre filosofia política, estudos culturais, estudos da performance e práticas artísticas e curatoriais que resistem ao ‘devir cultural da economia, e ao devir económico da cultura’, recorrendo à expressão de Frederic Jameson”, como remata o programa do evento.

Em Novembro de 2011, criado pela organização Epipiderme, teve lugar Imergência “como forma de questionamento sobre a urgência deste meio, o performativo enquanto acto singular e de tensão entre diferentes territórios: o artístico e o vivencial, o quotidiano e o provocador, o íntimo e o público, o poético e o ético”, evento que se destacou pela extensa programação em redor da arte da performance e pelo grande número de intervenientes envolvidos, tendo sido traçado o estado da arte da performance em Portugal,  num ciclo de três debates. De notar que em Novembro de 2009 esta organização havia já dado inicio aos mensais Encontros à volta da Performance, na Fábrica do Braço de Prata, apoiando igualmente criações de artistas nacionais e internacionais, workshops e residências artísticas.

Em Abril de 2011, foi organizado pelo CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia) o evento No performance´s land (ver cobertura do evento aqui), com apresentação de performances na Culturgest e conferências no IUL-ISCTE. Este evento, com curadoria de Paulo Raposo, juntou investigadores e artistas internacionais e nacionais num debate que, segundo o seu programa, propôs “resgatar os estudos performativos de um certo exílio conceptual e explicitar o seu retorno triunfal do que hoje se define por movimento re-performativo” no campo das artes e das ciências sociais. Sendo muito claramente um ponto fulcral na recepção dos Estudos de Performance no país, este evento, porém, ao ser realizado num departamento de Antropologia acabou por não abranger muito o meio das artes performativas ou das artes visuais portuguesas, tendo tido uma grande afluência de investigadores brasileiros do campo da Antropologia, área do saber que acabou por contaminar teoricamente o evento.

Desde 2011, a Universidade Católica em Lisboa insere-se no Lisbon Consortium, uma parceria entre várias instituições da cidade de Lisboa que compõem um programa de Mestrado e Doutoramento em Estudos de Cultura, de onde resgatamos algumas atividades relacionadas com os Estudos de Performance.

Em 2009, o Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro acolheu pela terceira vez o evento Performa 09, encontros de investigação em performance, numa abordagem que, focando-se principalmente na música, acolhe “propostas com proveniências disciplinares diversas, com alargamento às áreas da psicologia da música, musicologia, etnomusicologia, pedagogia, práticas interpretativas, análise musical e reflexão filosófica sobre interpretação”, como refere a organização.

Também na área da interpretação musical e performance decorreu, em Outubro de 2011, a conferência Música e Gesto organizada pelo Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) na Universidade Nova de Lisboa e Centro Cultural de Belém, onde se pretendeu abordar a relação entre som, música, performance, tecnologia e gesto.

Recuando até 2006, a Culturgest, em co-produção com a FBAUL, organizou um ciclo de conferências com o nome Performance: Estudos onde o conceito de performance foi abordado sob várias vertentes, mantendo, porém, o enfoque nas artes e associando-a aos movimentos de vanguarda. Muito embora o título do evento nos remetesse para os Estudos de Performance, o enfoque no artístico e a ausência de referências explícitas ao campo no seu broad spectrum (para usar uma expressão de Richard Schechner) faz com que não seja esse o caso. Mais tarde, a Associação de Estudantes da FBAUL editou a revista Marte: “De que falamos quando falamos de performance?”, organizada por Liliana Coutinho, contribuição importante para a bibliografia sobre performance em Portugal onde, porém, os Estudos de Performance apenas se encontram vagamente aflorados, dado o enfoque da publicação ser, à semelhança das conferências que o motivaram, o campo artístico.

Ainda no campo das artes visuais é de realçar o trabalho de promoção da Arte da Performance desenvolvido por António Lago e Susana Chiocha no projecto A Sala, no Porto, entre 2006 e 2007 ou, mais recentemente, o aparecimento do blog to perform que “pretende ser uma plataforma informal para divulgar, debater e arquivar performance e práticas performativas no campo das artes plásticas portuguesas”.

Festivais e laboratórios

No âmbito dos festivais de artes performativas que decorrem no país, destaca-se o Festival de Performances e Artes da Terra – Escrita na Paisagem que tem, desde 2004 (vai já na sua 9.ª edição), entre outras actividades da sua programação, organizado uma escola de verão com workshops dirigidos por criadores reconhecidos como, por exemplo, Guillermo Gómez-Peña. Conta com curadoria de José Alberto Ferreira, procurando sempre uma actualização temática em cada edição, bem como promovendo a descentralização artística sem receios nem preconceito. Fortemente vocacionado para o performativo e as questões dos Estudos de Performance, este festival recebe ocasionalmente teóricos do campo, por exemplo, Philip Auslander.

Entre outros, o festival alkantara (desde 2006) tem tido igualmente uma extrema importância na programação das artes performativas num contexto internacional. Até 2005, então com o nome Danças na Cidade (1993-2005), desenvolveu um intenso trabalho de promoção da dança contemporânea, especialmente dos jovens coreógrafos nacionais. A partir de 2006, muda de nome e é “através dos encontros internacionais, do programa de residências, do investimento em co-produções nacionais e internacionais, do apoio à investigação e edição de livros e de vídeos, que o alkantara se afirma como agente fundamental para a criação artística contemporânea nacional e persegue os seus objectivos de promoção e difusão da arte contemporânea internacional”, como refere o seu sítio da Internet.

De referir ainda a Transforma, organização sediada em Torres Vedras, cujo âmbito de acção tem largamente privilegiado as práticas performativas e cuja revista ArtinSite constitui uma referência na área; a já histórica Bienal de Cerveira; os projectos LABS e, mais recentemente, ANDLab organizados pela RE.AL; o Atelier Re.Al; o festival Pedras de Água, do cem – centro em movimento que ocasionalmente (e por vezes em parceria com o Fórum Dança e com a Culturgest) organiza workshops de reflexão sobre temas afins aos Estudos de Performance; e, recuando ao passado (de 1990 e 2008), o Festival X organizado pelo Olho – Grupo de Teatro e João Garcia Miguel e o Festival Atlântico, realizado na ZDB,  em Lisboa (1999), marcados pelo seu carácter transgressor do ponto de vista prático e teórico na programação da arte da performance.

Mais recentemente apareceram iniciativas como o Sintoma, na Faculdade de Belas Artes do Porto (FBAUP) ou a mostra Pré-Reforma, organizada na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Em Coimbra surgiu o festival Line Up Action – Festival Internacional de Arte da Performance, organizado pela Associação ICzero, tendo a sua primeira edição em 2010.

Importa ainda destacar o papel de outras identidades culturais que promoveram workshops e conferências, como é o caso do actual programa Próximo Futuro ou, recuando a 2007, do Fórum Cultural O Estado do Mundo, realizado no âmbito das comemorações do cinquentenário da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), ambos programados por António Pinto Ribeiro.

Remontando ao passado, é importante referir o “Atelier de preparação do Actor” dirigido por Richard Schechner, em 1993 na Escola da Noite / Instituto de Teatro Paulo Quintela em Coimbra. Apesar do título indicar uma formação dirigida especificamente a actores, é de destacar a presença de um dos pioneiros dos estudos de performance em Portugal, no início dos anos 1990.

Os trabalhos publicados em Portugal que seguiram explicitamente a linha dos Estudos de Performance tendem a ser pontuais, dispersos (entre revistas de artes performativas, de antropologia e de cultura) ou quase inexistentes, não havendo conhecimento de uma publicação, em formato periódico, inteiramente dedicada aos Estudos de Performance, entendidos no seu espectro alargado.

Esta rubrica estará permanentemente em actualização pelo que se tiverem sugestões ou comentários podem faze-lo para baldiohabitado@gmail.com (dizendo no assunto a que texto se referem).

* Em 2012 o ISCTE lançou uma Pós Graduação em Estudos de Performance coordenada por Paulo Raposo. Esta, porém, devido a falta de alunos nunca chegou a abrir , o que se deverá, porventura, à pouca divulgação do campo no país.

** colaboração na compilação dos dados: Manuel Henriques.