Conferências

SEXTA 14 DE MARÇO, 18H

Rui Catalão, Sílvia Pinto Coelho, Ana Bigotte Vieira e Joana Braga
moderador: Ricardo Seiça Salgado

Em três apresentações de 20 minutos cada, abordar-se-ão as práticas performativas como momentos privilegiados de encontro. Falar-se-á de espectáculos, processos criativos e de pequenas intervenções transdisciplinares disseminadas pela cidade.

A trabalhar com eles
Rui Catalão
Em 2000 trabalhei com João Fiadeiro – para uma peça que se chamou “O que eu sou não fui sozinho”. Desde então, trabalhando com outros coreógrafos, com gente da dança ou do teatro, todo o meu trabalho artístico moveu-se num território ambíguo, já que eu não trabalhava “para”, mas “com”, assumindo as minhas ideias, e arriscando o ponto de ruptura, até chegar à foz do trabalho (enquanto expressão unificadora de todas as pessoas nele envolvido). Isso implicou uma experiência pelos meandros do ego, do status, do controle, da manipulação, em suma, das relações com o poder. Para mim a reunião não é bem um ponto de partida mas de chegada, e a chave está menos nas dinâmicas de liderança do que na colaboração propriamente dita.

O trabalho de Rui Catalão tem-se caracterizado pela diletância. Em Portugal, assinou apenas uma peça: Elogio da classe política portuguesa (ZDB, 2004). Recentemente participou em Untitled, Still Life (ZDB, 2009) uma colaboração com João Galante e Ana Borralho. Na Roménia, apresentou Atît de frageda (2006), Coada soricelului (2007) e Follow that summer (2008), fazendo ainda as séries de improvisação Acum totsi împreuna e Rui (Centrul National al Dansului Bucuresti).
Jornalista e crítico do Público (1994-1999), onde ainda hoje colabora, iniciou em 2000 uma colaboração formativa com o coreógrafo João Fiadeiro, que culminou nas peças O que eu sou não fui sozinho e Existência. Trabalhou depois com Miguel Pereira (Portugal), Brynjar Bandlien (Noruega), Mihaela Dancs, Manuel Pelmus e Madalina Dan (Roménia). No cinema, é co-autor dos argumentos O capacete dourado (2008) e Morrer como um homem (2009). Como actor participou em A cara que mereces (2006).

Na Casa-Espelho: Propostas Ético-Estéticas de Pensamento Coreográfico
Sílvia Pinto Coelho
Em Caosmose, Guattari assinala o facto dos grandes movimentos de subjectivação não tenderem necessariamente para a emancipação. Proponho, com Guattari, olhar para paradigmas ético-estéticos como forma de evitar reterritorializações conservadoras da subjectividade. À proposta de Guattari, que pressupõe que a entrada em relação-com seja anterior à formação de identidades e de indivíduos, junto uma questão que André Lepecki coloca no seu texto Coreopolítica e Coreopolícia(2011: 49): «Podem a dança e a cidade refazer o espaço de circulação numa coreopolítica que afirme um movimento para uma outra vida, mais alegre, potente, humanizada, e menos reprodutora de uma cinética insuportavelmente cansativa, se bem que agitada e com certeza espetacular?».

Sílvia Pinto Coelho é coreógrafa, bailarina, investigadora e professora. Estando na fase final da sua tese de doutoramento Corpo, Imagem e Pensamento anseia por regressar ao campo da dança e da coreografia em que se especializou.

Da emergência dos encontros
Ana Bigotte Vieira, Joana Braga
Há hoje uma multiplicidade de práticas interdisciplinares críticas, de pequena escala, que com poucos meios agem em público, propondo a experimentação de formas de trabalhar e de viver em conjunto: modos de colaboração que se experimentam, espaços que se partilham, tarefas que se combinam. Muitas vezes situando-se na fronteira entre o artístico, o político e o social, assumem configurações variáveis, tendo em comum a criação de um espaço para a emergência dos encontros, numa altura em que o encontro, por razões políticas, é uma emergência. “People have been finding each other” disse-nos Gigi Argyropolou, referindo-se à efervescência da cidade de Atenas nos últimos anos. Sabendo que não abarcaremos tudo – e ainda bem – gostávamos de, sob o mesmo mote, viajar pelos encontros que nos últimos tempos emergiram em Lisboa.

Ana Bigotte Vieira: Doutoranda em Estudos Artísticos/ Bolseira da FCT, Visiting Scholar na NYU-TISCH entre 2009 e 2012. Estudou História Moderna e Contemporânea no ISCTE. Pós graduação em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de LIsboa. Traduziu Mark Ravenhill, Spiro Scimone, Luigi Pirandelo e Giorgio Agamben, entre outros. Dramaturgista e investigadora, é co-curadora de Baldio, um espaço de investigação em Estudos de Performance. Juntamente com Sandra Lang (CH), com quem co-edita a revista Jogos Sem Fronteiras, tem organizado uma série de eventos discursivos e performativos em torno da relação entre arte e política (16Beaver /NYC, Corner College/Zurich, entre outros).

Joana Braga: Doutoranda em Arquitectura dos Territórios Metropolitanos Contemporâneos, no ISCTE-IUL (desde 2012), a desenvolver a tese “Devir comum: intersecções entre a arte, a arquitectura e a teoria crítica”. Licenciada em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa (2005). Na mesma instituição conclui o curso de Estudos Avançados em Arquitectura Bioclimática e Restauro Ambiental, em 2012. Frequentou o Curso de Desenho da Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual entre 1999 e 2002. Desde 2004 colabora com ateliers de Arquitectura e de Artes Visuais, dos quais destaca o atelier Bugio e a colaboração com Leonel Moura. A partir de 2011 começa a desenvolver projectos próprios e em co-autoria. É investigadora associada do Baldio, um espaço de investigação em Estudos de Performance, apoiado pelo programa de Encontros Regionais da PSi.

SÁBADO 15 DE MARÇO, 18H

Fazer o encontro: para uma política da proximidade
André Lepecki
O que é, na sua potência, um encontro? O que é, na sua potência, a proximidade? Quais as forças que disparam, afectiva e politicamente falando? Esta fala navegará (mais ou menos sem rumo) pelo meu arquivo pessoal de performance art e dança de modo a que, ali mesmo, juntos, possamos pensar de que maneira fazemos para nós mesmos corpos, arte, e vidas abertas a encontros que nos ofereçam algo mais do que o comum. Ou seja: proponho a todos um encontro sobre fazer encontro.

André Lepecki, é Associate Professor no Department of Performance Studies, New York University. Doutor pela New York University é curador, ensaista, dramaturge. Autor de Exhausting Dance: Performance and the Politics of Movement (Routledge, 2006, traduzido atualmente em 9 línguas). Coordenador editorial de Of the Presence of the Body (Wesleyan U. Press, 2004), The Senses in Performance (com Sally Banes, Routledge 2007) Planes of Composition (Seagull Press, com Jenn Joy, 2009) e Dance (Whitechapel/MIT Press, 2012). Foi curador do Festival IN TRANSIT em 2008 e 2009, na Haus der Kulturen der Welt, Berlin. Foi co-curador e diretor do re-enactment autorizado de “18 Happenings in 6 Parts” de Allan Kaprow, para Haus der Künst, Munique. Com este trabalho, recebeu o prémio “Best Performance 2008” da Association Internationale de Critiques d’Art (AICA-USA). Foi co-curador do arquivo interativo Dance and Visual Arts since the 1960s, para exposição Move, na Hayward Gallery, Londres. Palestrante convidado na Princeton University, Brown University, Universidade de Basel, Freie Universität, Museo Reina Sofia, MACBA, MoMA, UFRJ, UFSC entre outras instituições de ensino e culturais nos EUA, Europa e Brasil.